Manaus (AM) – Com as férias escolares, a mudança na rotina das crianças tende a ampliar o consumo de alimentos ultraprocessados, doces e bebidas adoçadas – cenário que acende o alerta entre profissionais de saúde. Sem horários regulares e com mais tempo livre, cresce a exposição ao açúcar justamente em uma fase decisiva do desenvolvimento infantil.
Para a pediatra Vanessa Mendes, professora da pós-graduação em Pediatria da Afya Educação Médica, esse padrão alimentar pode deixar impactos duradouros ao “treinar” o paladar desde cedo para preferir sabores excessivamente doces, dificultando escolhas mais equilibradas ao longo da vida.
Segundo a especialista, o organismo infantil ainda está em formação, e o excesso de açúcar pode gerar uma sobrecarga precoce. Entre os principais riscos estão o sobrepeso e a obesidade infantil, cáries dentárias, aumento da pressão arterial, alterações no colesterol, maior risco de diabetes tipo 2, além de impactos no sono, na atenção e no comportamento.
“Tudo isso pode começar ainda na infância, mesmo em crianças que aparentam estar saudáveis”, explica.
Um dos desafios, segundo a pediatra, é que o açúcar nem sempre aparece de forma explícita na alimentação diária. Ele está presente em diversos produtos industrializados voltados ao público infantil, como iogurtes, achocolatados, cereais matinais, biscoitos recheados, bebidas lácteas, molhos prontos, papinhas industrializadas e até em pães e produtos de padaria. Durante as férias, esse consumo tende a se intensificar, já que as refeições fora de casa e os lanches rápidos se tornam mais frequentes. “Muitas vezes, os pais não percebem que a criança consome açúcar várias vezes ao dia”, alerta.
As bebidas adoçadas estão entre os principais vilões. Refrigerantes, refrescos em pó, sucos industrializados e néctares concentram grandes quantidades de açúcar e são rapidamente absorvidos pelo organismo. Além disso, não promovem saciedade e estimulam o consumo contínuo de doces ao longo do dia – um hábito que costuma se acentuar nos períodos de descanso escolar.
Em Manaus, fatores climáticos e hábitos locais intensificam esse cenário. O calor favorece o consumo frequente de líquidos, que muitas vezes ocorre por meio de bebidas adoçadas. Refrigerantes, sucos industrializados, achocolatados, bolachas recheadas, bolos açucarados e doces vendidos próximos às escolas fazem parte da rotina alimentar de muitas crianças.
Nas férias, com mais tempo em casa ou na rua, esse padrão tende a se repetir com ainda mais frequência. Os dindins, bastante populares na capital, também contribuem para a ingestão excessiva de açúcar, especialmente quando preparados com grandes quantidades de açúcar e corantes.
“O problema não é a criança sentir sede, mas matar essa sede com açúcar o tempo todo”, destaca Vanessa Mendes. Segundo ela, muitas crianças acabam ingerindo grandes volumes de açúcar ao longo do dia sem perceber, apenas para se hidratar.
Por outro lado, a pediatra reforça que os alimentos regionais podem ser grandes aliados na promoção de uma alimentação mais saudável, inclusive durante o recesso escolar. Frutas amazônicas como cupuaçu, taperebá, graviola, buriti e o açaí natural, quando consumidos sem adição de açúcar, ajudam a educar o paladar infantil e fornecem nutrientes essenciais, como fibras, vitaminas e minerais. A água de coco natural também é uma excelente alternativa para hidratação no clima quente da região.
“A oferta regular desses alimentos, especialmente quando preparados em casa, reduz a necessidade de açúcar adicionado e contribui para a formação de hábitos alimentares mais saudáveis desde a infância. Esse olhar preventivo é uma das bases da pediatria e da formação médica de qualidade”, afirma a professora da Afya Educação Médica.







