São Paulo (SP) – O avanço dos bancos digitais e fintechs transformou o sistema financeiro brasileiro nos últimos anos, ampliando o acesso a serviços bancários e reduzindo custos para milhões de consumidores. Mas episódios recentes envolvendo instituições de médio porte reacenderam uma dúvida recorrente: afinal, banco digital é mais arriscado do que banco tradicional?
Especialistas ouvidos pelo Band.com.br afirmam que a resposta curta é não necessariamente. O risco, segundo eles, não está no fato de a instituição ser digital, mas sim na qualidade da gestão, no modelo de negócios e no apetite ao risco adotado.
Para Cleveland Prates, professor da FGV Direito SP, existe uma confusão comum entre formato e risco. “Não é uma questão de ser fintech ou banco tradicional. O risco de quebra está muito mais ligado ao tipo de crédito concedido, aos investimentos realizados e à gestão de risco”, explica.
O papel do crescimento acelerado
Já Hugo Garbe, professor do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas da Universidade Presbiteriana Mackenzie, destaca que o risco aumenta quando instituições digitais crescem de forma muito rápida, sem que os controles acompanhem esse ritmo.
Segundo Garbe, fatores como concentração de funding, dependência excessiva de poucos produtos e assimetria de informação para o público são pontos que merecem atenção — mas não são exclusivos das fintechs.
Bancos tradicionais também falham
Ele lembra que bancos tradicionais contam, em geral, com base de depósitos mais estável, maior diversificação de receitas e estruturas de compliance construídas ao longo de décadas. Ainda assim, isso não garante blindagem total. “Tamanho ajuda, mas não é uma garantia absoluta”, resume.
Fintech não é banco — e isso importa
“Durante muito tempo houve uma confusão no mercado, com fintechs sendo tratadas como bancos. O Banco Central vem corrigindo isso justamente para dar mais clareza ao consumidor”, explica Ferreira.
Essa distinção é fundamental porque impacta diretamente quais produtos são cobertos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e quais riscos o cliente está assumindo.
O Índice de Basileia é um dos principais termômetros da saúde financeira de uma instituição, mas, segundo os especialistas, não deve ser analisado isoladamente.
“Um Basileia elevado reduz o risco de insolvência, mas não elimina riscos de liquidez, governança ou fraudes”, alerta Garbe.
Onde o cliente deve ficar atento
Para o consumidor comum, os especialistas recomendam menos foco no rótulo “digital” ou “tradicional” e mais atenção a sinais práticos de risco, como:
- Rentabilidade muito acima da média em produtos simples, como CDBs;
- Campanhas agressivas e contínuas de captação;
- Falta de transparência sobre produtos e riscos;
- Notícias recorrentes sobre problemas de governança ou intervenção regulatória;
- Concentração de recursos acima do limite do FGC em um único conglomerado.
Gestão importa mais que o formato
Na avaliação dos três especialistas, o debate sobre segurança financeira precisa evoluir. “O erro é achar que fintech é sinônimo de risco ou que banco grande é sinônimo de segurança”, afirma Cleveland Prates. “O que realmente importa é como a instituição gere riscos, crédito e capital.”
O risco está na gestão, na governança e no modelo de crescimento, não no fato de a instituição operar por aplicativo ou agência física. Para o cliente, informação, diversificação e atenção aos sinais do mercado seguem sendo as melhores formas de proteção.
*Reportagem da página de Economia do site Band.com
*Texto por Gabrielle Pedro – Repórter







