Manaus registrou a maior temperatura do ano ao atingir 38,6°C na última terça-feira (22), a maior de 2026. A onda de calor intenso, motivada pelo período de estiagem no clima equatorial e pela retenção térmica do solo urbano, elevou a demanda de energia a patamares históricos, forçando o acionamento de usinas termoelétricas e sobrecarregando o sistema de distribuição na região metropolitana.
O impacto das altas temperaturas refletiu-se diretamente no consumo de energia elétrica da capital amazonense. Na quarta-feira (23), a região metropolitana de Manaus registrou um pico histórico de demanda de 2.015 megawatts (MW), marcando o quinto recorde de consumo batido em um único mês.
De acordo com o mestre em Engenharia Elétrica, especialista em infraestrutura e diretor de concessões da Houer Concessões, Novack Garcia, o clima severo impõe um custo elevado ao sistema. Segundo o especialista, “o clima intenso com altas temperaturas acima de 40º cobram um preço do sistema. Para atender essa demanda, é necessário acionar fontes termoelétricas, mais energia cara sendo injetada no sistema”.

Novack Garcia explica que a infraestrutura opera em limite crítico durante essas ondas de calor, o que intensifica os gargalos operacionais. “A rede de distribuição opera acima da carga nominal. Isso significa dizer que os cabos de transmissão e distribuição operam superaquecidos, o que aumenta as perdas técnicas”, destaca o diretor.
Além do estresse térmico na fiação, o especialista apontou que as irregularidades na rede pesam no bolso da população regularizada.
“Para piorar o quadro, 50% da energia gerada, transmitida e distribuída não é paga pelo seu consumidor devido à alta existência de ligações clandestinas. No final, quem paga essa conta é o consumidor que paga em dia, que paga por uma geração térmica mais cara, que paga por um custo de transmissão e rede de distribuição mais caro”.
Fatores climáticos e série histórica de calor
O recorde de 38,6°C registrado pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) ultrapassou a marca anterior de 37,6°C obtida em 1º de setembro, além dos registros de 37,3°C em 31 de agosto e 37,1°C em 25 de agosto. Apesar de ser o dia mais quente de 2026, a marca permanece abaixo do recorde histórico absoluto da capital, de 40°C, registrado em 10 de outubro de 2023.
De acordo com o Inmet, o aquecimento severo decorre da combinação entre o período de seca do verão amazônico, a baixa umidade do solo que converte radiação solar em calor, e fatores urbanos como a escassez de áreas verdes e a alta concentração de asfalto e concreto.
O fenômeno climático El Niño e a menor incidência de chuvas acentuam a estiagem e agravam a retenção de calor na superfície. Paralelamente à elevação de temperatura, a capital e municípios da região metropolitana enfrentam episódios recorrentes de fumaça vindos de queimadas regionais.
Projeções para o abastecimento local
No centro desse esforço para sustentar os picos de demanda da capital amazonense está a Âmbar Energia, unidade de negócios de energia do grupo J&F. Detentora do maior parque gerador a gás natural do estado — após a aquisição de 12 usinas termoelétricas anteriormente pertencentes à Eletrobras, como Mauá III, Ponta Negra, Jaraqui e Aparecida, somando mais de 1,5 gigawatt (GW) de capacidade instalada —, a companhia é a principal responsável por injetar a energia térmica de emergência exigida pelo sistema elétrico nos momentos de calor extremo.
Além da geração, a Âmbar Energia expandiu sua presença na região ao assumir também o controle da distribuidora local (ex-Amazonas Energia), consolidando uma atuação integrada no Amazonas. Essa posição coloca a empresa diretamente no epicentro dos gargalos operacionais apontados pelos especialistas: se por um lado cabe às suas usinas garantir a segurança do abastecimento nos momentos de pico, por outro a infraestrutura enfrenta o superaquecimento das redes de distribuição e o alto índice de ligações clandestinas na metrópole.
A Âmbar Energia é o braço de energia da holding J&F S.A. e tornou-se uma das maiores geradoras de energia a gás natural do Brasil. No Amazonas, a empresa concluiu a compra do parque termoelétrico que pertencia à Eletrobras/Eletronorte e assumiu a gestão da distribuidora de energia do estado, atuando tanto na geração pesada a gás em Manaus quanto na entrega final de eletricidade aos consumidores.







