Os dados mais recentes do sistema Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), apontam uma redução significativa do desmatamento no Amazonas no primeiro trimestre de 2026. Entre janeiro e março, o estado registrou 3.190 hectares desmatados, contra 4.567 hectares no mesmo período de 2025, representando uma queda de 30,1%.
No acumulado entre agosto de 2025 e março de 2026, a redução chega a 35,5%, passando de 30.057 hectares para 19.366 hectares. Na Amazônia Legal, o Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD), do Imazon, também confirmou tendência consistente de redução, com queda de 17% no trimestre e de 36% no acumulado de oito meses — o menor índice registrado desde 2017.
Os números reforçam uma mudança importante no cenário ambiental brasileiro após anos de crescimento das taxas de desmatamento e garimpo ilegal entre 2019 e 2022, período marcado por fragilização institucional, redução da capacidade operacional dos órgãos ambientais e enfraquecimento das políticas de comando e controle.
No terceiro mandato do presidente Lula, a política ambiental voltou ao centro da agenda federal. Entre as principais medidas estão a retomada do Fundo Amazônia, a recomposição de conselhos ambientais, o aumento do orçamento destinado à gestão ambiental — quadruplicado em relação ao piso do governo anterior — e o reposicionamento internacional do Brasil no debate climático, especialmente após a realização da COP30 no país.
Ainda assim, especialistas apontam que os avanços convivem com pressões políticas e econômicas permanentes. Ambientalistas criticam a lentidão em alguns processos estruturantes, enquanto setores ligados à expansão agropecuária e à infraestrutura acusam excesso de rigor ambiental.
Municípios críticos seguem sob forte pressão
Apesar da queda geral, algumas regiões continuam concentrando elevados índices de pressão sobre a floresta. Os municípios de Novo Aripuanã, Lábrea e Humaitá lideraram os registros de desmatamento no primeiro trimestre de 2026, com 338 hectares, 315 hectares e 288 hectares desmatados, respectivamente.
Esses territórios permanecem associados à expansão desordenada da fronteira econômica, grilagem de terras públicas, exploração madeireira ilegal, garimpo clandestino e ocupações irregulares.
Mesmo com a redução da área efetivamente desmatada, os alertas emitidos pelo sistema de monitoramento aumentaram 12% no Amazonas, passando de 141 para 159 registros. Esse crescimento não representa necessariamente aumento da devastação, mas sim maior capacidade de detecção e resposta preventiva graças ao aprimoramento tecnológico do monitoramento remoto.
Fiscalização integrada e tecnologia explicam parte dos resultados
Os resultados observados em 2026 decorrem principalmente do fortalecimento da fiscalização integrada entre órgãos federais e estaduais. Operações conduzidas pelo IBAMA, Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Funai, IPAAM e SEMA-AM ampliaram a presença do Estado em áreas críticas da Amazônia, especialmente no sul do Amazonas.
O uso intensivo de inteligência ambiental, imagens de satélite, cruzamento de dados territoriais e monitoramento em tempo real permitiu respostas mais rápidas às infrações ambientais.
Embargos, destruição de equipamentos utilizados em crimes ambientais e ações de responsabilização civil e administrativa passaram a ocorrer de forma mais coordenada. Além da repressão direta, a estratégia atual também aposta em prevenção e recuperação ambiental.
PPCDAm volta a ocupar papel central
Grande parte da redução observada em 2025 e 2026 está associada à retomada do PPCDAm — Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal.
Criado em 2004, o PPCDAm foi responsável pela maior redução histórica do desmatamento na Amazônia entre 2004 e 2012, quando as taxas caíram cerca de 84%. Após um período de enfraquecimento entre 2016 e 2022, o plano foi relançado em 2023 e repactuado em 2026.
A quinta fase do PPCDAm (2023-2027) está estruturada em quatro grandes eixos:
• atividades produtivas sustentáveis;
• monitoramento e controle ambiental;
• ordenamento fundiário e territorial;
• instrumentos normativos e econômicos.
O plano integra ações de fiscalização, regularização fundiária, rastreabilidade de cadeias produtivas, bioeconomia, agricultura familiar, recuperação florestal e incentivos econômicos para conservação.
“A estratégia busca consolidar a meta brasileira de desmatamento ilegal zero até 2030 proposta pelo Presidente Lula e encaminhado pela Ministra Marina Silva com apoio dos órgãos executores da política nacional do meio ambiente como o Ibama”, Afirma Joel Araújo, Superintendente do Ibama no Amazonas.
Recuperação florestal ganha protagonismo
Uma das mudanças mais importantes na política ambiental recente é o fortalecimento das ações de recuperação de áreas degradadas.A Plataforma Recooperar, criada pelo IBAMA em 2024, já acompanha cerca de 480 mil hectares em recuperação ambiental obrigatória em todo o país, com forte presença na Amazônia.
No Amazonas, ações judiciais articuladas pela Advocacia-Geral da União garantiram a recuperação de áreas degradadas em municípios como Lábrea. Paralelamente, projetos de restauração ecológica e produtiva vêm sendo financiados pelo Fundo Amazônia e por programas federais de bioeconomia.
Iniciativas como o projeto “Floresta para o Bem-Estar” avançam na recomposição vegetal, plantio de mudas e regeneração produtiva em áreas degradadas.
PrevFogo amplia brigadas para enfrentar temporada de seca
Outro componente estratégico da política ambiental em 2026 é o fortalecimento do PrevFogo, centro especializado do IBAMA responsável pela prevenção e combate aos incêndios florestais.
A Portaria nº 64/2026 autorizou a contratação de brigadas federais em municípios estratégicos do Amazonas, incluindo Humaitá, Autazes, Lábrea, Barreirinha e Nova Olinda do Norte.
Para 2026, o planejamento nacional prevê mais de 120 brigadas e cerca de 2.600 brigadistas em todo o Brasil, com reforço especial na Amazônia.
A redução da degradação florestal causada por queimadas e extração seletiva, observada em março de 2026, demonstra a importância das ações preventivas antes do período mais severo da seca amazônica.
Incentivos positivos ganham espaço
Além das ações repressivas, o governo federal ampliou programas de incentivo à conservação. O Projeto Floresta+ Amazônia, financiado pelo Fundo Verde para o Clima, prevê cerca de US$ 96 milhões até 2026 para pagamentos por serviços ambientais, recuperação florestal e fortalecimento da governança ambiental.
Já o Programa União com Municípios pela Redução do Desmatamento e Incêndios Florestais na Amazônia mobiliza aproximadamente R$ 800 milhões em assistência técnica, regularização ambiental, recuperação de áreas degradadas e fortalecimento institucional de municípios prioritários.
A proposta é transformar municípios historicamente associados ao desmatamento em protagonistas de modelos econômicos sustentáveis baseados em bioeconomia, agricultura familiar, manejo florestal e restauração produtiva.
No Amazonas ampliou-se a presença de brigadas e brigadistas. Até 2022 eram 3 brigadas com 60 pessoas trabalhando, hoje são 8 brigadas com 198 agentes de prevenção e combate à incêndios florestais localizadas em:
- Humaitá no Projeto de Assentamento Maria Auxiliadora (1),
- Lábrea nos assentamentos federais da região (2),
- Manicoré na Terra Indígena Tenharim Marmelos (1),
- Apuí no Assentamento Apurinã-Guariba (1),
- Autazes na Terra Indígena Recreio-São Félix (1),
- Nova Olinda do Borte no Assentamento Curupira (1),
- Barreirinha na Terra Indígena Andirá Marau (1).
FortFisc moderniza fiscalização do IBAMA
Outro marco recente foi a criação do FortFisc, maior projeto já financiado pelo Fundo Amazônia para o IBAMA.
Com investimento de R$ 825,7 milhões, o programa prevê aquisição de helicópteros, drones de alta tecnologia, bases móveis, sistemas de inteligência artificial e novas estruturas operacionais para fiscalização ambiental.
O projeto amplia significativamente a capacidade de atuação do Estado em regiões remotas da Amazônia Legal, aumentando segurança operacional, rapidez de resposta e cobertura territorial.
A modernização da fiscalização é considerada estratégica para manter a tendência de redução do desmatamento observada em anos anteriores.
Avanços coletivos importantes
A redução do desmatamento não pode ser interpretada apenas como consequência de operações repressivas isoladas. Ela resulta da combinação entre governança climática, presença estatal, monitoramento científico, cooperação federativa, recuperação ambiental e fortalecimento de alternativas econômicas sustentáveis.
O desafio agora é garantir continuidade política, estabilidade institucional e financiamento de longo prazo para consolidar a trajetória de queda e evitar novos ciclos de avanço da devastação na Amazônia.
*Com informações de Joel Silva / Ibama – AM







